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Cimavilla, bairro de pescadores e baleeiros

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Cimavilla
Se há um bairro em Gijón que define a sua história, é Cimavilla, o bairro alto, o bairro dos marinheiros. Ao abrigo do morro de Santa Catalina, os romanos instalaram-se num acantonamento a que deram o nome de Gigia que, segundo as crónicas, era, a par de Lancia, em Leão, a cidade mais importante dos astures. Assim se contam as origens de Gijón.

Visto no mapa, o bairro de Cimavilla encontra-se perfeitamente delimitado. “Esta terra encontra-se fortificada por poderosos elementos naturais, montanhas de agreste relevo e um mar poderoso golpeia as suas costas. Toda esta terra é de exuberante beleza, onde bate um redemoinho de luta constante, um contínuo manancial de vida que nasce das próprias entranhas da terra e das águas que a fecundam”, contavam os historiadores romanos. Sobre uma península, que se une à terra firme por um pequeno istmo onde atualmente se localiza a Plaza Mayor e que une a marina e a praia de San Lorenzo, a “cidade alta” encontra-se rodeada a leste e oeste pelo mar Cantábrico e ao norte pelo morro de Santa Catalina: um miradouro sobre toda a cidade, onde está situado o Elogio do Horizonte, uma escultura de Eduardo Chillida que se converteu num dos símbolos mais reconhecíveis de Gijón e onde se encontram os restos dos bastiões que, no seu tempo, defenderam a cidade e o porto de legendários corsários, vikings, ou normandos, ou de franceses e ingleses.

É essa presença constante do mar que marca o caráter de Cimavilla. Já desde a época romana, uma das atividades dos “praias” como chamam aos habitantes do bairro, foi a pesca. Esta tradição descobre-se em qualquer passeio pelo bairro antigo. As casas “marinheiras”, com corredores e traseiras em madeira, muito típicas de Gijón, com corta-fogos de pedra, demarcam ruas e pracetas, como a da Corrada, a rua do Rosário, a de Atocha, dos Remédios, …

Cimavilla foi sempre um bairro muito familiar, de marinheiros, em que toda a gente se conhecia e que fazia as melhores festas da cidade. Atualmente, as vozes das varinas extinguiram-se e deram lugar ao rumor das suas numerosas sidrarias, restaurantes, cafés e bares. Ainda assim, o odor a salitre e o ruído das gaivotas ainda fazem lembrar as tradições piscatórias e marinheiras que prevaleceram durante séculos na península.

Já na época romana, Gijón tinha uma importante atividade piscatória, o que é denunciado pela fábrica de salgados que, junto com as termas, as muralhas, as cisternas e as canalizações são testemunho da presença latina na cidade. A pesca fazia-se fora das muralhas, na praceta do Marquês, para ser longe da população e evitar os maus cheiros. As ruínas destas construções ainda se podem apreciar num passeio pela parte baixa do bairro.

Entrando pelas portas reconstruídas da muralha, entramos numa Gijón diferente, tranquila, com casas de cor e com palácios em cada uma das suas praças: o palácio Revillagigedo, na praceta do Marquês, o palácio Valdés, em frente à sempre fotografada igreja de San Pedro, ou o palácio Jovellanos, com a capela anexa dos Remédios. Neste último, vale a pena visitar o Retábulo do Mar, de Sebastião Miranda. Esta obra de arte exalta a tradição pesqueira e marinheira de Cimavilla ao representar uma cena habitual no bairro: o leilão do pescado na lota, ou mercado local. São 156 figuras que representam outros tantos habitantes do bairro a que o artista pagou 1,50 pesetas para retratar.

Um pouco mais acima, abre-se um amplo espaço que parece dominar a vida do bairro. É a praça de Artur Arias, ou Campu les Monxes. Aos pés do enorme convento e igreja das Agostinianas Recoletas que, desde 1842, após ser confiscado, foi dedicado à tabaqueira estatal, os habitantes de Gijón encontram-se para passar a tarde com umas garrafas de sidra e alguns petiscos, quase sempre com produtos do mar. No ambiente da praça destacam-se duas casas tradicionais de pescadores, expoentes do sabor marítimo que ainda carateriza Cimavilla. Distinguem-se pelas suas reduzidas dimensões e pela existência de uma escada de pedra exterior que dá acesso à casa. Este elemento indica que estas casas foram construídas antes de 1844 já que nessa data as escadas exteriores foram proibidas pelos regulamentos municipais.

As ruelas convidam a perder-se para descobrir pequenos recantos nortenhos com sabor a mar. Na praça da Corrada, onde antigamente tinham lugar os atos públicos e as corridas de touros, encontra-se o palácio de Alvargonzález. Na fachada do edifício, de origem nobre, como se pode aperceber pelas pedras de armas da fachada, concretamente no detalhe da varanda corrida executada em madeira, podem apreciar-se as claras influências da tradição construtora marinheira das Astúrias, ou seja, das casas típicas das zonas costeiras da região. O beiral do telhado, tão projetado para o exterior e tão ornamentado pelos painéis de madeira, servia para preservar as fachadas, ou neste caso, as varandas, das inclemências do tempo numa zona como a cantábrica em que a chuva é frequente.

Antes de chegar ao porto, a capela da Saudade é paragem obrigatória. Este pequeno oratório foi erigido no ano de 1674. Em meados do século XIX foram para aqui trasladadas as imagens de Santa Catalina e da Virgem das Marés, procedentes da capela de Santa Catalina que existia no morro e onde tinha a sua sede a confraria dos Marinheiros. A Saudade é a segunda invocação religiosa que encontramos no bairros depois da Virgem dos Remédios. O bairro alto de Gijón sempre esteve dividos em dois grupos, em função da confraria a que cada um pertencia. Os pedreiros veneravam a Virgem dos Remédios e os marinheiros ou pescadores, a Virgem da Saudade e era famosa a rivalidade entre eles.

A Confraria dos Marinheiros era a que financiava e organizava a caça à baleia no porto de Gijón. Os vigias, desde o ponto mais alto de Cimavilla, no morro de Santa Catalina, avistavam esses valiosos cetáceos e avisavam com fogueiras os baleeiros que saíam ao seu encontro para lhes dar caça. A baleia, uma vez arrastada para terra, era desmanchada e repartida. A tradição mandava que o ventre fosse para a capela da Saudade, uma barbatana para o pescador que a tivesse matado e a outra repartida entre toda a comunidade de pescadores. A última baleia foi capturada no ano de 1722 e desse passado baleeiro sobrevivem nomes como a Passagem das Baleias, na descida para o porto junto à animada Cuesta’l Cholo.

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